27 de mar de 2013

Meu pimpolho Samuel


Como Devem os Pais Lidar com a Hiperactividade
Uma criança hiperactiva, acima de tudo, tem o desejo e a necessidade de se sentir segura e amada. Como tal, o papel dos pais é primordial. É importante que desde a mais tenra idade que se comece a incutir princípios de vida regulares, uma educação centrada no amor e afecto, na consistência, na coerência, numa forma contentora onde os pais dão aos seus filhos as ferramentas necessárias para combater o stress e as suas angustias.
À parte disto, é preciso saber lidar com as adversidades do quotidiano para não desanimar em demasia. É preciso seleccionar aquilo que é interdito com aquilo que será uma batalha impossível para ambas as partes. É necessário ter em atenção as atitudes tomadas com aquilo que se combinou fazer, etc. A responsabilização ajuda sempre. Como as crianças estão sempre atentas para poderem explorar os erros dos pais, neste caso específico é “obrigatório” ter atitudes coerentes e consistentes no tempo que essencialmente transmitam segurança. Quanto mais contentores os pais conseguirem ser mais margem de manobra terão para passarem a educação desejada. As crianças precisam de sentir que aquilo que os pais sugerem e dizem para fazer tem enquadramento, tem uma razão de ser e traz bem-estar.

É necessário explorar a assertividade com a família, exprimir-se firmemente, explicar brevemente a razão da interdição. Para isso, a recusa de qualquer coisa tem de ser considerada como o fim da discussão, não como o início e abertura duma interminável negociação. Os pais não devem justificar tudo o que decidem sob pena de serem contestados e de estarem a abrir um precedente de argumentação sob o que é próprio ou não para os filhos. O “truque” para os pais está em conseguir encontrar o equilíbrio entre a relação educativa e pedagógica que se pretende ter com os filhos e como eles assimilam e aplicam essa informação.

Quando os limites estiverem bem definidos, mostre-se compreensivo com o seu filho, escute-o e procure interessar-se pelas actividades dele. Confie no seu filho a responsabilidade de certas tarefas, porque isso irá desenvolver as competências ligadas ao saber fazer e de se exprimir com imaginação e sabedoria. Felicite o seu filho sempre que ele ficar contente com os sucessos e encoraje-o a lidar com a frustração quando as coisas correrem mal.

O Tratamento
O tratamento da hiperactividade necessita de tempo, de uma psicoterapia consistente e de longa duração. O pano de fundo, de facto, é sempre uma montagem de redes contentoras das ansiedades à volta dessas crianças, isto é, tem de ser montada uma malha que ligue a família, a escola e a própria criança. Estas três redes têm de estar interligadas e têm de se influenciar. Em qualquer das redes o elo de confiança tem de estar bem desenvolvido sob pena de qualquer medida ser ineficaz. A partir daqui, o estabelecimento dessa confiança, os diálogos empáticos dos pais e um terapeuta ajudarão a modular a relação pais-filho com o objectivo de a tornar menos inquieta, afectivamente mais rica e mais organizadora. Estas características são essenciais mas para haver o equilíbrio desejado não podem tornar-se em intrusivas ou manipuladoras.
A finalidade do tratamento consiste em permitir um desenvolvimento normal, mas se não há dúvida que os resultados a curto prazo dos tratamentos são favoráveis e muito interessantes, a longo prazo os resultados dependerão muito dos pais e da manutenção das estratégias anteriormente desenhadas.
O Enquadramento da Hiperactividade
Numa altura tão importante como a do início do ano lectivo, o regresso às aulas, ou o início para quem nunca foi, pode ser um dos tais momentos onde podem aparecer sinais de comportamentos fora do contexto habitual. Ora, como não queremos que por um lado a negligencia desenvolva ainda mais as dificuldades, e por outro que a falta de atenção promova outras, como a depressão pela desmotivação, por exemplo, é uma boa altura de ficarmos mais vigilantes acerca destas questões.

Durante o desenvolvimento infantil duma criança a interactividade e a exploração que ela faz com o mundo pode ter uma forma mais intensa numas alturas que noutras, mas geralmente ganham uma expressividade maior sempre que se desenvolve mais uma competência ou quando se dá a passagem para mais um estádio novo do desenvolvimento. É normal as crianças, pelos seus próprios pés vasculharem tudo, pegarem em tudo, de subirem a cadeiras, de treparem a móveis, de tocarem em quadros pendurados, etc. Faz sentido, portanto, com tantas coisas interessantes para fazerem e descobrirem, não haja razão nenhuma para ficarem quietos…
Mas enquanto toda esta actividade é normal na maioria das crianças, noutras a actividade parece que se manifesta a uma velocidade louca, como se estivessem dentro dum mundo de caleidoscópios. Para estas crianças, que têm uma Perturbação Deficitária da Atenção/Hiperactividade (PDAH, DSM, 1994), as imagens, os sons e os pensamentos parecem estar sempre a distrai-los, e têm uma grande dificuldade em se concentrarem numa tarefa ou objectivo. A prevalência da PDAH anda na ordem dos 3% a 5% da população infantil, sendo que, existem mais casos nos rapazes que nas raparigas. Têm como característica a presença de uma desatenção e uma hiperactividade que são invasoras, intrusivas e que estão muito presentes em casa e na escola.

O Retrato Dinâmico da Criança Hiperactiva
A primeira pergunta que se deve fazer é porque será que há crianças que escolhem a hiperactividade como via motora de expressão sintomática dum conflito? A primeira vez que se pode observar a uma grande agitação ou irrequietude motora em crianças hiperactivas é por volta dos 2 e os 3 anos quando já estão na idade capazes de usar bem o andar e o correr. É precisamente neste período do desenvolvimento infantil que decorrem processos psicológicos complexos como a “separação” inicial da mãe, onde a locomoção e o sentimento de constância de objecto consolida-se e completa-se. Progressivamente vai-se construindo a capacidade de simbolização que vai permitir chegar às brincadeiras simbólicas, e ao pensamento complexo.
Nesta fase, as necessidades emocionais da criança fazem-na reaproximar-se da mãe, encontrando-se com alguma autonomia psicológica adquirida mas ainda com uma dependência de reabastecimento emocional directo da mãe. Assim, a criança quando se reaproxima, reassegura-se do amor, do interesse e aprovação da mãe e pode-se novamente afastar. O problema da criança irrequieta é que não adquiriu este sentimento de confiança básica nem conseguiu construir uma capacidade eficaz de simbolização, que permita representar mentalmente, de um modo calmante, a ausência ou a presença da mãe. Este tipo de crianças vão tendencialmente permanecer num estado de reaproximação/afastamento sem fim, enquanto não forem capazes de reduzir mentalmente as suas angústias e inseguranças. O que acontece é que nestas crianças os processos de individualização ficaram para trás em relação à dimensão motora dos processos de separação.
Na maioria das crianças hiperactivas a chamada separação psicológica acabou por ocorrer sempre à frente do tempo. É por isso que o processo de individualização revela-se insuficiente. Isto é, foram crianças que sofreram uma precipitação no processo separação/individuação, instalando-se assim quadros de ansiedades.
Estas ansiedades, para além de se caracterizarem como deprimidas, são também caracterizadas como persecutórias na medida que uma criança que “foge” é porque se sente “perseguida”. Trata-se evidentemente de uma perseguição interna derivada de como se foi constituindo e estruturando o seu self com os seus objectos internos. Será pois uma fuga manifestada num exterior sem fim, através de expressões motoras e cognitivas agitadas e irrequietas. A escolha do sintoma motor deriva assim de ser a via possível de alívio que a criança encontra para as suas ansiedades depressivas e persecutórias, na etapa que o conflito irrompeu.
Uma consequência desta dinâmica consiste na insuficiente capacidade de simbolização e de abstracção, apesar da inteligência destas crianças ser normal.
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